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O caminho até a escola também é violência

O caminho até a escola também é violência

Imagine a cena: seu filho acorda cedo, veste o uniforme e sai de casa para ir à escola. Mas o ônibus não passa. A rua está bloqueada. Há uma operação policial no bairro, ou uma barricada erguida na madrugada. Ele volta. Mais um dia sem aula. Esse episódio não é imaginação nas vidas de quase 190 mil crianças e adolescentes da rede municipal do Rio de Janeiro, é rotina documentada.

“Percursos Interrompidos” é um estudo lançado pelo Instituto Fogo Cruzado, GENI/UFF e UNICEF. A pesquisa quantifica o que famílias de determinados territórios sabem há décadas: chegar à escola, no Rio, não é garantido para todos. Entre janeiro de 2023 e julho de 2025, foram registradas 2.228 interrupções no transporte público causadas por dinâmicas de violência armada. Quase metade delas ocorreram em horário letivo. Das 4.008 escolas municipais ativas em 2024, 95% tiveram ao menos uma interrupção em seu entorno. Uma estimativa conservadora aponta ao menos 188.694 crianças e adolescentes diretamente afetados.

Esse é o segundo capítulo de uma série que começamos com a “Educação sob Cerco”. No primeiro estudo, mostramos como a violência armada prejudica o desempenho e aumenta o abandono escolar. Agora os dados revelam que o problema começa antes mesmo da chegada à escola.

E não estamos falando de pequenos atrasos. A duração média de cada interrupção foi de sete horas. Um quarto dos episódios ultrapassou onze horas. Quando ocorrem em dias e horários letivos, a média sobe para oito horas e treze minutos. Na prática, um evento de violência armada no entorno de uma escola equivale a um turno inteiro perdido. Multiplique isso pelos anos analisados e teremos uma geração de estudantes que saiu para às aulas, mas não chegou até lá.

Quem causou essas interrupções? Em horário escolar, as barricadas responderam por 32,4% dos registros. Ações ou operações policiais vieram logo atrás, com 22,7%. Grupos armados e Estado juntos explicam mais da metade das vezes em que alunos ficaram sem conseguir se locomover pela cidade. Esse é o custo educacional da política de segurança que nunca entra na conta.

Um dos pontos mais reveladores do estudo é onde isso acontece. A Penha acumulou 633 eventos no período, o equivalente a 176 dias sem circulação de transporte público. Jacarepaguá somou 128 dias de interrupção acumulada; Bangu, 45. Das mais de quatro mil escolas municipais, 120 foram classificadas como de risco Alto ou Muito Alto e 71 delas, quase 60%, estão na Zona Norte. No outro extremo, 70 dos 166 bairros do município não registraram uma única interrupção em horário escolar no mesmo período. 

Esse padrão não surpreende quem acompanha os dados de violência armada no Rio. Como demonstramos no Mapa Histórico dos Grupos Armados, a renda média em territórios sob controle armado é quase três vezes menor do que em áreas sem controle. A mobilidade interrompida segue a mesma lógica de todas as outras desigualdades da cidade, aprofundando o que já é profundo.

O que os dados tornam inegável é que o debate sobre educação no Rio não pode continuar ignorando a violência armada, e o debate sobre segurança pública não pode continuar ignorando o que as operações policiais custam à educação. Cada tiroteio, cada barricada, cada operação que bloqueia ruas em horário escolar é também uma decisão sobre quem terá acesso ao conhecimento neste país.

Por Maria Isabel Couto
Diretora de dados e transparência do Instituto Fogo Cruzado 

Maria Isabel Couto é co-criadora do Instituto Fogo Cruzado, o maior banco de dados sobre violência armada da América Latina e do primeiro e único mapa histórico do controle territorial armado de facções e milícias no Rio de Janeiro. Doutora em sociologia pelo IESP/UERJ, atua com segurança pública há mais de 15 anos.

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