Este fuzil não conta uma história única, isolada. Ele é parte de um enredo mais longo, que se repete há bastante tempo. Até hoje, nenhum policial foi responsabilizado pelo sumiço da arma. Pior: a própria investigação desapareceu. O Inquérito Policial Militar (IPM) foi instaurado em 2010, após uma conferência no 16º BPM detectar o desfalque de dez armas — seis fuzis, três submetralhadoras e um revólver. A corregedoria chegou a identificar uma testemunha que afirmou ter presenciado a venda de um fuzil por R$ 45 mil a milicianos da Zona Norte, mas a apuração não avançou.
Onze anos depois, a PM abriu uma nova investigação, dessa vez para apurar o desaparecimento do próprio IPM sobre o sumiço das armas. Em 2024, o Ministério Público arquivou o procedimento “por não haver elementos suficientes para o exercício responsável da ação penal”, sem localizar o inquérito inicial. As outras nove armas seguem desaparecidas.
Na operação de outubro também foram apreendidos cartuchos dos lotes CYA19 e ETU03, adquiridos pelo Exército. O Estado não só perde o controle de seu arsenal, perde também o controle das investigações sobre esses desvios e da munição que as alimenta. Sempre vale a pena lembrar que os projéteis utilizados no assassinato da vereadora Marielle Franco pertenciam ao lote UZZ-18, vendido pela CBC à Polícia Federal em 2006, e já haviam sido usadas em uma chacina em São Paulo em 2015.
A CPI das Armas da ALERJ já havia documentado a dimensão do problema em 2016: entre 2005 e 2015, quase 19 mil armas legais foram desviadas para o mercado ilegal no Rio de Janeiro. Dessas, 700 sumiram dos paióis da PM, 900 da Polícia Civil e 17 mil de empresas de segurança privada. Entre 2015 e 2018, outras 1.049 desapareceram da Polícia Civil.
Interessante também é observar o que acontece quando uma dessas armas é finalmente localizada: quase nada. As investigações sobre desvios raramente resultam em punições efetivas. Os responsáveis pelas falhas nos controles não são identificados. Os elos da cadeia de desvio não são desarticulados. A arma é apreendida, vira estatística, o Estado comemora a apreensão e aquela arma está pronta para repetir o ciclo.
A falta de controle sobre o arsenal público tem nome: negligência institucional. A ausência de investigações efetivas também: impunidade. E o resultado dessa combinação é um mercado ilegal de armas robusto, facções cada vez mais bem armadas e uma população que paga o preço mais alto.
As armas do Estado são parte da engrenagem que alimenta a violência urbana, assim como a corrupção de agentes públicos. Dados sobre os desvios de armas deveriam ser públicos. Porque são essenciais para compreendermos como funcionam as estruturas que organizam o crime no Brasil. Governadores gostam de ir para as redes sociais celebrarem fuzis apreendidos. Esses números ficariam mais interessantes se pudéssemos comparar com a quantidade de armamento desviado do Estado a cada ano, não?
Socióloga, mestra (UFRuralRJ) e doutora (UFRJ), Iris pesquisa violência, território e tecnologia, com publicações em revistas especializadas.



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