Em 2025, 351 pessoas foram baleadas durante disputas entre grupos armados nas regiões metropolitanas do Rio, Recife, Salvador e Belém. E já no primeiro mês de 2026, uma pessoa foi morta a cada 36 horas durante um assalto no Rio de Janeiro. No mesmo período, em média, uma vítima de bala perdida a cada dois dias.
Quando alguém te diz que segurança pública será o principal tema da eleição deste ano, não se trata apenas de estatísticas como essa. Esta é uma eleição que premiará aquele que administrar melhor o medo e prometer punir mais. Uma disputa perigosa que transforma segurança pública em espetáculo eleitoral, enquanto a população convive com uma violência que é real e cotidiana.
Falar de segurança pública passou a ser uma forma eficaz de disputar votos, justificar exceções legais, silenciar críticas e reorganizar alianças políticas. Não se trata mais de apresentar diagnósticos ou soluções estruturais para a violência, mas de oferecer respostas simples, duras e moralizantes para problemas complexos.
A milícia deixou de ser apenas um fenômeno criminal localizado e passou a ocupar lugar central na política brasileira. Ela não cresce onde o Estado falta, ela prospera onde ele atua seletivamente, protege aliados e transforma violência em ativo político e econômico.
As facções seguem o mesmo caminho. O Comando Vermelho ampliou seu domínio territorial no Grande Rio em 89,2% entre 2007 e 2024 e hoje controla áreas onde vivem 1,6 milhão de pessoas. A relação entre grupos como o CV e a política multiplicam: no Rio, o ex-deputado TH Joias foi preso como "relevante membro do Comando Vermelho"; na última quarta-feira, o prefeito de Lelmo Marinho (RN) foi detido por liderar organização criminosa. O controle territorial virou modelo político nacional.
Quando candidatos prometem "mais polícia nas ruas e mais armas em circulação", eles adotam o método miliciano de governar: naturalizar a violência como mediação social, criminalizar adversários e capturar estruturas estatais para fins privados. A milícia não atua à margem do estado, mas em simbiose com ele.
Os dados do Fogo Cruzado documentam esse processo. Em 2025, 39% dos tiroteios no Grande Rio aconteceram durante operações policiais — 936 pessoas baleadas, 460 mortas. A política do confronto não desarticulou uma única facção, não retomou territórios. Mas as operações policiais deixaram 61 vítimas de balas perdidas, afetaram a rotina de 565 escolas e fecharam as principais vias da cidade 30 vezes.
A saída do ministro da Justiça e Segurança Pública, Ricardo Lewandowski, acende outro alerta. A PEC da Segurança Pública, principal proposta do governo federal para o setor, pode encontrar dificuldades para avançar. O PL antifacção, mesma coisa. Mais uma vez, ficamos sem diretrizes nacionais, sem coordenação entre estados, sem planos baseados em evidências.
Quando políticos prometem "armas pesadas" sem apresentar planos, indicadores ou metas, não estão propondo solução, estão fazendo campanha. E campanhas não salvam vidas.
Temos evidências de como essa maneira de fazer política de segurança pública não gera resultados que a sociedade deseja, isto é, não deixa mais seguros. Mas quando os dados contrariam narrativas políticas, a resposta é sempre a mesma: minimizar, desqualificar, negar. O governador Ronaldo Caiado, ao ser questionado pelo estudo Floresta em Pó, que identifica 125 laboratórios de cocaína em Goiás — quase 200% a mais que o Amazonas —, disse que a pesquisa foi feita por "um instituto que tenta desqualificar os estados". Classificou os laboratórios como "artesanais" e "de fundo de quintal". Não é coincidência que o governador tenha o hábito de dizer que “acabou com o crime em Goiás” e que tenha a segurança como sua principal plataforma política atualmente.
A violência institucional como promessa de campanha, e como política de governo, não se manifesta com tanques nas ruas. Ela se dá por dentro das instituições, com mandatos legítimos e eleições regulares. Tudo parece democrático enquanto direitos viram privilégios, a lei é substituída pela força e a violência estatal se torna não apenas aceitável, mas desejável.
Em 2026, a disputa eleitoral se organizará em torno de quem se mostra mais disposto a aprofundar esse caminho. Enquanto isso, as facções crescem, as milícias se expandem e a população continua pagando o preço. Até quando?
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Cecília Olliveira é jornalista, fundadora e diretora-executiva do Instituto Fogo Cruzado, referência nacional em dados sobre violência armada. Autora de Como Nasce um Miliciano. |


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