O projeto tramitou por meses no Congresso Nacional, acumulou oito versões e foi aprovado na Câmara dos Deputados. Contudo, o resultado foi, essencialmente, o aumento de medidas punitivas, sem de fato propor novas estratégias. O que poderia transformar a política de segurança ficou pelo caminho.
A versão original do PL tinha avanços importantes. Seu eixo mais consistente era o estrangulamento financeiro das facções, estratégia reconhecida internacionalmente como mais eficaz do que o encarceramento em massa. O projeto que chegou no Congresso foi enviado pelo governo federal e previa bloqueio imediato de bens e contas antes da condenação final, intervenção judicial em empresas usadas para lavagem de dinheiro e conversão de criptomoedas apreendidas em reais, com destinação ao Fundo Nacional de Segurança Pública. Era uma tentativa de atacar o coração econômico das organizações criminosas.
O texto também diferenciava papéis dentro das facções, reduzindo penas para integrantes sem posição de liderança. Esse mecanismo importa porque viabiliza colaborações e permite identificar quem toma decisões estratégicas com vistas a desarticular estruturas de comando. O Banco Nacional de Facções, construído via cooperação internacional coordenada pela Polícia Federal, daria suporte a essa estratégia.
Apesar de boas ideias, o projeto tinha problemas. Definições sobre acesso a dados cadastrais sem autorização judicial, geolocalização de usuários por cinco anos e a possibilidade de gravação de conversas entre presos e advogados acenderam alertas legítimos sobre vigilância em massa e direito à ampla defesa. Era um texto que precisava ser aprimorado, não desmontado.
Na Câmara, o relator Guilherme Derrite, ex-policial militar e aliado do governador Tarcísio de Freitas, reescreveu o projeto segundo uma lógica diferente: mais repressão, menos inteligência. Ao longo de seis relatórios, foram eliminados exatamente os mecanismos que dariam ao Estado mais capacidade real de combater o crime organizado.
O Senado tentou reparar os danos. O substitutivo aprovado pela Casa resgatou parte dos mecanismos de estrangulamento financeiro e reequilibrou um texto que havia se tornado, na prática, um catálogo de penas maiores. Mas quando o projeto voltou à Câmara, os retrocessos vieram em bloco. O presidente Hugo Motta impediu a orientação das bancadas, negou o tempo regimental e pressionou pela retirada de destaques. O texto foi aprovado sem que a maioria dos parlamentares tivesse condições reais de avaliar o que estava sendo discutido.
O que chegou para a sanção presidencial é uma proposta de legislação bastante aquém dos desafios enfrentados pelo Brasil. Estão previstas penas mais altas, algo que soa bem em ano de eleições. No entanto, a cláusula que diferenciava os líderes dos integrantes da base foi suprimida. Na prática, um jovem recém-recrutado em território dominado pode receber a mesma pena de décadas que um chefe de facção.
A CIDE-Bets, que poderia destinar até R$30 bilhões ao Fundo Nacional de Segurança Pública, saiu do texto. Com ela, foram embora o financiamento estável para inteligência policial e a integração entre forças de segurança. Também desapareceram as previsões de responsabilização de operadoras de telefonia, meios de pagamento e plataformas digitais, atores cujo papel no crime organizado é crescente e documentado.
Ampliar penas sem enfrentar questões estruturais agrava a superlotação e aprofunda as falhas históricas da execução penal, produzindo o efeito inverso ao que o projeto alega buscar. Não custa lembrar: o Brasil já tem uma das maiores populações carcerárias do mundo. E isso foi fundamental para que as facções crescessem e se expandissem.
O que oito versões e meses de tramitação deixaram claro é que, neste Congresso, segurança pública continua sendo tratada como plataforma eleitoral. O projeto aprovado significa uma imensa perda de oportunidade num momento crucial para a segurança pública no país. E quem paga o preço, como sempre, é a população que vive sob domínio armado e a falta de perspectiva de um futuro diferente.
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