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Dados contradizem a narrativa de melhora na sensação de segurança em três estados do país, diz Fogo Cruzado

Dados contradizem a narrativa de melhora na sensação de segurança em três estados do país, diz Fogo Cruzado

Terine Coelho dedica-se à pesquisa sobre a atuação das forças policiais e órgãos de segurança pública, com ênfase nas temáticas de letalidade policial e prevenção à violência.

Uma pesquisa Quaest divulgada recentemente confirmou o que qualquer conversa entre conhecidos já indicava: violência é a principal preocupação dos brasileiros. Ao mesmo tempo, indicadores tradicionais como homicídios e latrocínios mostram queda consistente em várias regiões do país. Como essas duas coisas coexistem?

Os dados do Fogo Cruzado podem ajudar a entender essa contradição. Nas quatro regiões metropolitanas que monitoramos — Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Belém — o número total de tiroteios entre janeiro e março de 2026 caiu em relação ao mesmo período de 2025. No Rio, chegamos ao menor número desde 2017. Na Bahia, ao menor desde 2023. Em Pernambuco e no Pará, também houve recuo. Se parássemos aqui, a leitura seria de melhora. Mas os dados de disputas entre grupos armados contam uma história diferente.

No Grande Rio, os tiroteios entre grupos armados durante disputas pelo controle territorial caíram de 112 para 83 no período. Mas as pessoas baleadas nessas situações saltaram de 61 para 124, o maior número desde o início da nossa série histórica em 2017. Menos confrontos, muito mais vítimas. 

O Comando Vermelho ampliou seu domínio territorial em 89,2% entre 2007 e 2024, somente na região metropolitana do Rio de Janeiro, e segue expandindo seus territórios, não só no Rio. Quando um grupo desse tamanho pressiona as fronteiras de territórios controlados por outros, a população fica no meio. Raquel Heloísa Cádiz Vieira, de 9 anos, brincava numa praça pública no Estácio. O bairro fica entre o Morro da Mineira, dominado pelo Terceiro Comando Puro, e o Morro do Fallet, dominado pelo Comando Vermelho. Homens do CV atacaram a localidade rival e houve tiroteio. Raquel foi atingida. Outras três pessoas também foram baleadas, duas delas morreram. 

Raquel não estava no lugar errado. Ela estava exatamente onde qualquer criança tem o direito de estar. Não foi a rotina da população que mudou, o que mudou foi onde e como os conflitos acontecem. Os ataques migraram das disputas internas entre grupos para espaços de grande circulação: bares, praças, ruas movimentadas. A lógica deixou de ser conter o inimigo e passou a ser conquistar à força territórios já ocupados, como documentamos no Mapa Histórico dos Grupos Armados: as organizações criminosas deixaram de crescer pela colonização de áreas vazias e passaram a disputar territórios já dominados por outros grupos. O resultado prático é que os conflitos acontecem cada vez mais dentro de regiões densamente habitadas, colocando mais gente na linha de tiro.

Em Pernambuco, o dado não é de alta gradual, é de ruptura. Nos anos anteriores, nesse mesmo período monitorado, o máximo de tiroteios em disputas registrado eram três. Entre janeiro e 25 de março de 2026, foram 20, com 20 pessoas baleadas. É o padrão que já documentamos em outras regiões: violência que não distingue alvos, que entra pela porta de casa, que pune quem simplesmente mora no lugar ‘errado’.

Na Bahia, os números de disputas recuaram: de 67 tiroteios para 30, de 52 baleados para 22. A violência geral também caiu, com baleados passando de 699 para 510. O contexto, porém, é necessário. Os números ainda são altos e é preciso tomar em conta que dados da Secretaria Nacional de Políticas Penais (Senappen) do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP) mostram que, das 88 organizações criminosas em atuação no Brasil, 46 estão atuando e disputando os nove estados do Nordeste. 

Homicídios e latrocínios são indicadores importantes, mas não capturam a expansão do controle territorial armado, a mudança nos padrões de confronto, a chegada de dinâmicas novas a regiões que antes não as registravam. Os nossos dados de disputas medem outra coisa: onde os grupos estão em confronto e o impacto disso na vida da população.

O que os primeiros meses de 2026 mostram é que esse crescimento não é uniforme, mas é consistente. Esse conjunto de dados deveria produzir respostas à altura. Deveria provocar perguntas públicas sobre o que os governos estaduais e federal estão fazendo diante de uma expansão documentada, com endereço e data, que deixou de ser problema de um estado faz tempo. A violência cresce com regularidade. As respostas institucionais, não.

Por Terine Coelho, gerente de pesquisa do Instituto Fogo Cruzado

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