O diagnóstico de linfoma do ex-ministro José Dirceu, divulgado na sexta-feira, 15 de maio, voltou a chamar atenção para um tipo de câncer que afeta células essenciais do sistema imunológico e que, em muitos casos, pode evoluir de forma silenciosa.
Linfoma é um câncer hematológico que se origina nos linfócitos, células responsáveis pela defesa do organismo. A doença acomete o sistema linfático, estrutura composta por linfonodos, baço, medula óssea e vasos linfáticos.

De acordo com o hematologista Roberto Luiz Silva, responsável técnico pelo Departamento de Transplante de Medula Óssea do IBCC Oncologia, um dos desafios da doença é justamente a dificuldade inicial de sua identificação.
“Muitos pacientes chegam ao consultório após semanas ou meses tratando sintomas inespecíficos, como febre persistente, suor noturno ou cansaço excessivo. O aumento dos gânglios linfáticos, principalmente no pescoço, nas axilas e na virilha, costuma ser um dos sinais mais característicos e merece investigação”, explica.
Doença possui dezenas de subtipos
Os linfomas são classificados em grupos, sendo os principais o linfoma de Hodgkin e o linfoma não Hodgkin. O primeiro é considerado menos frequente e apresenta altas taxas de cura, especialmente quando diagnosticado precocemente. Já o linfoma não Hodgkin reúne dezenas de subtipos diferentes, que variam entre formas de crescimento lento e tumores altamente agressivos.
Segundo o médico, entender o comportamento biológico da doença é essencial para definir a estratégia terapêutica. “Hoje sabemos que o linfoma não é uma doença única. Existem características moleculares e genéticas que influenciam diretamente na resposta ao tratamento e no prognóstico. Por isso, o diagnóstico preciso é uma etapa fundamental”, afirma o especialista.
Para cada ano do triênio de 2026 a 2028 são esperados cerca de 3 mil casos de linfoma de Hodgkin, e mais de 12 mil casos de Linfoma não Hodgkin, de acordo com estimativa do Instituto Nacional do Câncer (Inca).
Avanços mudaram o tratamento da doença
Embora a quimioterapia ainda seja uma das principais formas de tratamento, os avanços da Hematologia transformaram significativamente o cuidado dos pacientes nas últimas décadas. Terapias-alvo, imunoterapia e transplante de medula óssea fazem parte das abordagens disponíveis para determinados casos.
“A Hematologia avançou muito nos últimos anos. Já conseguimos utilizar medicamentos mais específicos, capazes de atacar mecanismos do tumor com mais precisão e menos toxicidade em comparação aos tratamentos convencionais”, destaca.
Segundo o médico, a imunoterapia tem desempenhado papel importante especialmente em casos mais complexos ou resistentes. “Em alguns subtipos, conseguimos estimular o próprio sistema imunológico do paciente a reconhecer e combater as células doentes. Isso mudou completamente a perspectiva terapêutica de muitos pacientes”, afirma.
CAR-T Cell surge como alternativa inovadora
A terapia CAR-T Cell já é considerada uma das abordagens mais inovadoras para alguns tipos de linfoma, principalmente nos casos em que a doença volta após o tratamento convencional ou não responde adequadamente à quimioterapia e à imunoterapia.
O tratamento utiliza células de defesa do próprio paciente, os chamados linfócitos T, que são coletadas e modificadas em laboratório para reconhecer e atacar as células cancerígenas de forma mais precisa. Depois dessa reprogramação genética, as células são reinfundidas no organismo.
O tratamento tem indicação principalmente para alguns subtipos de linfoma não Hodgkin, como linfoma difuso de grandes células B, linfoma do manto e linfoma folicular, em situações específicas.
“O CAR-T Cell não substitui todas as terapias existentes. Ele faz parte de uma linha terapêutica altamente especializada e indicada para perfis específicos de pacientes”, afirma Roberto Luiz Silva.
O tratamento ainda possui alto custo e requer centros especializados, já que pode provocar efeitos adversos importantes, como reações inflamatórias intensas e alterações neurológicas temporárias. Mesmo assim, a terapia é considerada uma das maiores revoluções recentes da Hematologia Oncológica.
Prognóstico depende do diagnóstico precoce
O prognóstico do linfoma depende de fatores como tipo da doença, estágio, idade do paciente e resposta ao tratamento. De maneira geral, as taxas de cura podem ser elevadas, sobretudo quando o câncer é identificado precocemente, explica o hematologista.
O especialista reforça ainda a importância de não ignorar sintomas persistentes. “O corpo costuma dar sinais. Linfonodos aumentados sem dor, perda de peso inexplicada, febre recorrente e suor noturno intenso não devem ser tratados como algo banal, principalmente quando persistem por várias semanas”, alerta.
Também é importante o acesso rápido a centros especializados em Oncologia e Hematologia, capazes de oferecer diagnóstico preciso e tratamento individualizado para cada perfil de paciente.


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