A morte do jogador sul-africano Jayden Adams, de 25 anos, poucos dias após disputar a Copa do Mundo, comoveu o universo do futebol e levantou uma importante reflexão sobre saúde mental. Até o momento, as autoridades não divulgaram a causa oficial da morte, e qualquer associação ao suicídio permanece sem confirmação.
Independentemente das circunstâncias, o caso evidencia uma realidade conhecida por profissionais da saúde mental: nem sempre o sofrimento psicológico é visível. Muitas pessoas continuam trabalhando, estudando, convivendo socialmente e até alcançando grandes conquistas enquanto enfrentam dores emocionais profundas, sem que familiares, amigos ou colegas percebam.
Segundo a psicóloga Cristiane Belmonte, da Clínica Belmonte Saúde, existe um equívoco comum em acreditar que quem sorri, produz ou demonstra força necessariamente está bem.
"Nem sempre quem está sorrindo, trabalhando, praticando esportes ou conquistando objetivos está emocionalmente bem. Muitas pessoas desenvolvem mecanismos para esconder a própria dor por medo de serem julgadas, por vergonha ou por acreditarem que precisam dar conta de tudo sozinhas."
A especialista ressalta que não é adequado estabelecer relações entre mortes e suicídio sem confirmação oficial. No entanto, situações como essa reforçam a importância de ampliar o debate sobre saúde mental e incentivar uma cultura de acolhimento e escuta.
"Quando uma morte ocorre sem esclarecimento oficial, é fundamental agir com responsabilidade e respeito à família, evitando especulações. Ao mesmo tempo, situações como essa nos lembram da importância de falar sobre saúde mental e de criar espaços seguros para que as pessoas possam expressar o que estão sentindo."
Para Cristiane Belmonte, uma das formas mais eficazes de ampliar esse debate é levar o tema para ambientes onde as pessoas passam boa parte do tempo, como empresas e escolas.
"Nas empresas, a SIPAT (Semana Interna de Prevenção de Acidentes do Trabalho) é uma excelente oportunidade para promover palestras e rodas de conversa sobre saúde emocional. Além disso, campanhas como o Janeiro Branco, o Setembro Amarelo e o Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro, ajudam a manter essa discussão presente ao longo do ano."
Segundo a psicóloga, o ambiente escolar também desempenha um papel fundamental na prevenção e na promoção da saúde mental.
"Com crianças e adolescentes, essa conversa pode acontecer de forma lúdica, por meio de filmes, histórias ou pequenas encenações que mostrem que muitas pessoas usam uma espécie de máscara para parecer bem, mesmo quando estão sofrendo. Essas atividades facilitam a compreensão e estimulam a empatia."
Ela destaca ainda a importância de preparar educadores para reconhecer sinais de sofrimento emocional.
"Capacitar professores para identificar mudanças de comportamento em seus alunos, colegas e até em si mesmos é uma estratégia importante. Muitas vezes, o professor é um dos primeiros adultos a perceber que algo não vai bem."
Os pais também devem fazer parte desse processo
"A escola pode promover palestras e encontros voltados às famílias, fortalecendo a rede de apoio em torno das crianças e adolescentes. Quanto mais pessoas estiverem preparadas para acolher e orientar, maiores são as chances de que alguém em sofrimento receba ajuda no momento certo."
Para a especialista, iniciativas como essas aproximam o tema da realidade das pessoas e contribuem para reduzir o estigma em torno da saúde mental.
"Quando falamos sobre emoções de forma natural, mostramos que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas de cuidado consigo mesmo. Isso incentiva as pessoas a procurarem apoio de um profissional, de um familiar, de um professor ou de um amigo antes que o sofrimento se torne ainda maior."
Entre os sinais que podem indicar que alguém precisa de ajuda estão mudanças bruscas de comportamento, isolamento, perda de interesse por atividades antes prazerosas, alterações no sono ou no apetite, irritabilidade persistente e frases que demonstram desesperança. Ainda assim, a ausência desses sinais não significa necessariamente que a pessoa esteja bem.
"Muitas pessoas sofrem em silêncio. Por isso, mais do que tentar identificar sinais evidentes, precisamos cultivar relações em que seja possível perguntar genuinamente 'como você está?' e estar disposto a ouvir sem julgamentos. A escuta acolhedora pode ser o primeiro passo para que alguém procure ajuda."
Cristiane Belmonte conclui reforçando que cuidar da saúde mental deve ser visto como um ato de prevenção e autocuidado.
"Assim como buscamos ajuda quando sentimos uma dor física, também devemos procurar apoio quando percebemos que algo não vai bem emocionalmente. Falar sobre saúde mental salva vidas e ajuda a reduzir o estigma em torno do sofrimento psicológico."


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