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Como a violência impacta a educação

Como a violência impacta a educação

Por Terine Coelho, gerente de pesquisa do Fogo Cruzado

A produção colaborativa de dados sobre tiroteios do Fogo Cruzado nos permite produzir estatísticas de violência, mas também medir o impacto dela na vida da população. Um dos caminhos para isso é cruzar os dados de violência armada e de educação, esforço que acabamos de fazer na Bahia. 

Entre 2023 e 2025, Salvador registrou 3.748 tiroteios, uma média de 3,4 ocorrências por dia. Em 59% deles, os disparos aconteceram em dias letivos. E 40% ocorreram durante o dia, justamente nos períodos em que crianças e adolescentes estão indo para a escola, saindo dela ou apenas tentando assistir aula. 

Os números ajudam a desmontar a ideia de que a violência armada é um problema noturno ou mais frequente na madrugada. Para parte dos estudantes de Salvador, ela atravessa o horário escolar e interfere na rotina, na mobilidade e no direito à educação. Em outubro de 2025, um menino de 9 anos foi atingido por dois tiros, durante uma ação policial, no Nordeste de Amaralina, em Salvador. Ele estava a caminho da escola, acompanhado do pai, quando foi atingido nas nádegas e na mão.

O caso é exemplo de outro dado: 37,4% dos tiroteios registrados no período aconteceram durante ações ou operações policiais. É a principal categoria mapeada, à frente de homicídios e tentativas de homicídio, que somaram 32%. Isto é, há uma decisão operacional tomada por gestores públicos que interferem diretamente no acesso às escolas e no direto à educação de milhares de jovens baianos.

A violência armada em horário escolar não é distribuída igualmente pela cidade. Dos 163 bairros de Salvador, apenas oito concentram quase 20% de todos os tiroteios registrados no período. Beiru/Tancredo Neves acumulou 124 registros no período; Pernambués, 109; Fazenda Grande do Retiro, 95; Lobato, 94; Valéria, 87; Federação, 84; IAPI, 74; e Castelo Branco, 73.  Em todos eles, a proporção de população não branca passa de 83%, chegando a 92,93% no Lobato. Em seis, a renda média per capita é inferior a R$ 900. 

O novo estudo do Instituto Fogo Cruzado e da Iniciativa Negra Por Uma Nova Política Sobre Drogas, "A Geografia da Exposição: disparos de arma de fogo, território e escolas afetadas em Salvador", mapeia e analisa o impacto da violência armada nas escolas públicas de Salvador, entre 2023 e 2025. 

Para medir essa exposição, o estudo criou o Índice de Risco do Entorno Escolar (IREE), que considera a proximidade dos tiroteios, a letalidade dos episódios e a frequência com que eles atingem o entorno das escolas. O resultado revela uma rede de ensino profundamente desigual. Enquanto a maioria das cerca de 600 escolas de Salvador apresenta baixa exposição, um grupo restrito de unidades convive com níveis críticos de violência.

No período analisado, 120 escolas estiveram em áreas críticas durante pelo menos um ano. Seis permaneceram nesse cenário de altíssimo risco durante todo o tempo do estudo. Em 2025, mais de 23 mil estudantes estavam matriculados em escolas classificadas como de alto risco ou críticas.

São essas seis escolas que demonstram que a violência armada tem território, cor e renda. No entorno delas, a renda média varia entre R$ 594,10 e R$ 702,59, e a população não branca fica entre 87,4% e 91,2%. Os modelos estatísticos do estudo apontam que escolas situadas em territórios com renda mais baixa e maior proporção de população não branca apresentam índices de risco significativamente maiores. 

Em 2025, 2.802 estudantes estavam matriculados nas dez escolas classificadas como de alto risco pelo IREE, e outros 20.744 em escolas em áreas críticas. Mais de 23 mil alunos. Quase 17,9 mil deles estudam em apenas duas regiões: Liberdade/São Caetano, a mais crítica da cidade, com 12.643 matrículas, e Cidade Baixa, com 5.242.

O estudo mostra que o caminho da política pública é não tratar a rede escolar como um bloco homogêneo. É preciso usar dados georreferenciados e indicadores como o IREE no planejamento, na alocação de equipes, na gestão de crises, no apoio psicossocial e pedagógico, e em protocolos que articulem Educação, Assistência Social, Segurança Pública e Saúde antes, durante e depois dos episódios de violência. Porque uma criança só está protegida de verdade quando a ida, a permanência e a volta da escola acontece em paz.

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