Pessoas com histórico de transtorno mental têm entre 10 e 20 vezes mais chance de acabar em situação de rua, segundo estudo conduzido em São Paulo e publicado em 2024 na Revista Brasileira de Medicina de Família e Comunidade. Uma vez nessa condição, cerca de 30% convivem com algum problema de saúde, sendo a saúde mental a segunda causa mais frequente, atrás apenas da hipertensão.
"Lutar não significa nunca cair. Significa encontrar motivos para levantar, seguir em frente e pedir ajuda quando necessário. Cada pessoa trava batalhas que às vezes não podem ser vistas. Reconhecer nossas lutas também é reconhecer a nossa capacidade de sempre seguir em frente", diz Marcos Henrique, participante do projeto Recomeçar é Possível (RéP), no Centro-Lapa, Rio de Janeiro.
Frases como essa aparecem nas oficinas semanais de arteterapia do RéP, entre recortes de papel e conversas que começam devagar. Realizado pela People's Palace Projects Brasil e pelo Instituto LAR, em parceria com a Petrobras, o projeto atende pessoas em situação de rua no Centro do Rio por meio de ações de acolhimento, fortalecimento de vínculos e geração de renda. Muitos dos que chegam ao projeto passaram semanas, às vezes meses, sem trocar mais que poucas palavras com alguém sobre sua situação de rua. Mais do que a rua em si, o que pesa é o isolamento e a perda dos vínculos que sustentam a vida cotidiana. Por isso, a primeira abordagem da equipe é de acolhimento: um espaço e alguém disposto a ouvir. É nesse sentido que o RéP dialoga com o Setembro Amarelo, reforçando que a prevenção ao suicídio e a valorização da vida precisam ser ações permanentes, não de um mês só.
Lançado em 2015 pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), o Setembro Amarelo chega em 2026 à sua 12ª edição, com o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio marcado para 10 de setembro. Só pela linha de telefone 188, mantida pelo CVV, são recebidas mais de 14 mil ligações por dia em todo o país, um volume que dá a medida de quanto a escuta ainda falta na rotina de milhões de brasileiros, inclusive, e sobretudo, de quem vive em situação de rua, para quem o acesso a esse tipo de cuidado costuma ser ainda mais distante.
"A desigualdade social é uma das principais causas estruturais da vulnerabilidade social e também um fator de risco à saúde mental de quem vive em situação de rua. A precariedade das condições de vida, a exposição à violência e o isolamento tornam essa população mais próxima de quadros de adoecimento mental e do uso abusivo de substâncias, e dificultam ainda mais o acesso ao cuidado. É preciso que o encaminhamento aos serviços de saúde mental chegue todos os dias do ano a quem mais precisa, substituindo julgamento por acolhimento, escuta ativa e atendimento psicológico e psiquiátrico especializado", afirma Ana Paula Rios, coordenadora do RéP.
Em setembro, prédios se iluminam de amarelo e campanhas ganham as redes por algumas semanas. No Centro do Rio, o RéP tenta manter essa mesma luz acesa nos outros onze meses do ano.


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