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A cada quatro feminicídios cometidos com arma de fogo em 2025, um teve como autor um agente de segurança

A cada quatro feminicídios cometidos com arma de fogo em 2025, um teve como autor um agente de segurança

A cada quatro feminicídios cometidos com arma de fogo em 2025, um teve como autor um agente de segurança
Antes de terminar 2025, dados demonstravam que o Rio de Janeiro poderia marcar o recorde em feminicídios cometidos por agentes de segurança. Em outubro daquele ano, já havia sido registrado nove casos, mais que o ano inteiro de 2024. Os dados confirmam uma realidade ainda mais brutal. O crescimento não se limitou aos agentes armados pelo Estado. O número total de feminicídios e tentativas praticados com arma de fogo cresceram 52% em 2025 nas quatro regiões metropolitanas monitoradas pelo Fogo Cruzado.

Ao menos 48 mulheres cis e duas mulheres trans foram vítimas desse tipo de violência na região metropolitana do Rio de Janeiro, Recife, Salvador e Belém em 2025. Em 2024, foram 33 casos. Um salto que revela um padrão de violência que se fortalece com o acesso facilitado às armas de fogo e a omissão institucional.

A cada quatro feminicídios cometidos com arma de fogo em 2025, um teve como autor um agente de segurança. Foram 12 casos ao todo, número superior aos oito registrados em 2024. São homens treinados, armados e mantidos pelo Estado que utilizam do status para assassinar sobretudo suas companheiras e ex-companheiras. 

Bruna Meireles Corrêa, 32 anos, foi morta a tiros pelo ex-namorado, o policial militar Wladson Luan Monteiro Borges, no veículo dele, após uma discussão, no dia 12 de março, na Pedreira, em Belém. Neide foi executada pelo marido, também policial, em frente ao filho de quatro anos, em Simões Filho, na região metropolitana de Salvador. No Grande Rio, onde em outubro já registrávamos um recorde, o número se consolidou como o pior da série histórica. Entre os casos está o de Jaqueline Rafaela, 51 anos, executada com pelo menos cinco tiros pelo marido, sargento da PM, na comunidade do Terreirão, Recreio dos Bandeirantes.

A arma que deveria proteger a população se transforma em instrumento de extermínio doméstico. E isso não acontece por acaso. O ciclo do feminicídio armado começa muito antes do tiro: no controle disfarçado de ciúme, no isolamento progressivo da vítima, na presença intimidadora da arma guardada em casa. Quando há uma arma, o clima muda. A vítima evita denunciar porque sabe que a arma existe, que o agressor tem treinamento, e que muitas vezes conta com proteção corporativa.

Os números escancaram o que especialistas e movimentos de mulheres alertam há anos: ter uma arma em casa não protege mulheres, só amplia o poder do agressor. A alta de 52% nos casos registrados pelo Fogo Cruzado confirma isso e revela um padrão que começa no controle silencioso, se fortalece no isolamento e ganha desfecho trágico quando a arma entra na história.

Cada real investido em segurança pública que resulta em uma arma usada para matar uma mulher é um desvio de finalidade inaceitável. Cada feminicídio cometido por um CAC é a prova que a flexibilização ao acesso às armas não protege ninguém. O Fogo Cruzado é a única instituição que mapeia sistematicamente feminicídios e tentativas de feminicídios cometidos por agentes de segurança, reforçando de novo a importância da produção colaborativa de dados sobre violência.

Nos últimos dias de 2025, a alta nacional de feminicídio foi abordado na imprensa e bastante questionado no debate público. Mas a questão central permanece sem resposta: quantas mulheres ainda precisarão morrer para que as instituições de segurança pública assumam responsabilidade não somente pela prevenção da violência, mas também pelo controle efetivo de seu próprio arsenal?

Por Marianna Araujo

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