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O que sobra e o que falta no debate sobre segurança?

O que sobra e o que falta no debate sobre segurança?

Por Marianna Araujo, diretora de comunicação e inovação do Fogo Cruzado

Não é difícil apontar o que sobra no debate público sobre segurança. Ele é repleto de desinformação e de propostas inexequíveis, muitas delas inconstitucionais. Na conversa sobre violência e segurança, tão presente atualmente, sobram ideias que se repetem há décadas, quase sempre baseadas em suposições sem lastro na realidade.

E o que falta? Sem dúvida, evidências que possam servir de base para soluções e alternativas. Faltam dados, e foi por essa razão que o Fogo Cruzado foi criado há dez anos. Mas não é só isso. Afinal, estatísticas, sozinhas, não transformam o debate público. A sociedade civil brasileira tem feito um excelente trabalho ao longo dos últimos anos com foco em superar o vazio de informação e, mesmo assim, avançamos pouco na conversa pública sobre segurança. Por quê?

Essa é uma pergunta que tem motivado algumas experimentações que temos feito por aqui. Com o passar do tempo, o Fogo Cruzado foi expandindo sua área de atuação. Começamos produzindo dados e aos poucos fomos nos dedicando a comunicar esses e outros dados, exatamente numa tentativa de disputar as conversas sobre segurança e violência. Nessa trilha, temos tentado compreender o que pode facilitar ou dificultar o surgimento de novas ideias no debate público sobre esse tema.

Uma possível resposta para essa questão está na pesquisa que lançamos agora: "Mulheres, polícia e facções: o que está no centro do debate sobre segurança?". Para ela, entrevistamos 2.000 pessoas, numa parceria com o Instituto Update. A pesquisa quantitativa foi precedida por uma etapa qualitativa, que envolveu dez tríades (grupos de três pessoas com perfis semelhantes). O resultado é um material extenso, com as principais percepções dos brasileiros sobre o problema da segurança pública, suas causas e as possíveis soluções.

Para além dos grandes números, o levantamento mostra que há um imenso vazio no imaginário brasileiro quando o tema é segurança. É um vazio que vai das causas do problema à solução. Quando questionados sobre a polícia, mais da metade dos entrevistados indica que ela não é capaz de desempenhar seu papel de proteger a população, seja porque não consegue, seja porque é despreparada. No entanto, a polícia praticamente não é associada ao problema da segurança pública.

O mesmo acontece com a corrupção. Facções e milícias são apontadas como fonte de medo e insegurança. Ora, para que um grupo criminoso se fortaleça, é preciso que haja colaboração de agentes do Estado. Essa associação, entretanto, não é feita pelos entrevistados.

O vazio é o mesmo quando a conversa é sobre soluções. Não surpreende que a maioria dos entrevistados indique "penas mais duras" como alternativa. A questão é que as penas se concretizam depois que o crime já aconteceu. Tanto nas tríades quanto na pesquisa quantitativa, fica clara a pouca referência que os entrevistados têm de políticas públicas de segurança.

A pesquisa nos mostrou novas lacunas nessa conversa. Nosso imaginário é estreito e há temas que precisam aparecer mais. É preciso falar sobre como a polícia e a corrupção são parte do problema. É preciso conversar mais sobre políticas públicas. Apenas negar os pontos de vista que dominam esse debate não parece ser suficiente para construirmos novos consensos e espalharmos outras ideias. Ampliar esse imaginário, e não apenas contestá-lo, talvez seja o caminho para que novas ideias entrem na roda.

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