Quando o medo da violência organiza a vida, ele também organiza o voto. Em fevereiro, escrevi aqui que a eleição de 2026 premiaria quem administrasse melhor o medo - e as urnas mostraram exatamente isso.
Ao menos 51 parlamentares vindos das forças de segurança foram eleitos para o Congresso Nacional em 4 de outubro: 42 deputados federais e nove senadores. No Rio, o governador eleito, Douglas Ruas, é inspetor licenciado da Polícia Civil. Em São Paulo, Guilherme Derrite, que fez carreira na PM, foi eleito e é o senador mais votado da história do país em números absolutos.
Parte desse salto se explica pela própria dinâmica do pleito, que neste ano renovou dois terços das cadeiras da Casa, o dobro de 2022. Ainda assim, no Senado, a fatia das vagas ocupadas por agentes de segurança mais que quadruplicou, indo de dois para nove.
Mais do que contar policiais, delegados e militares eleitos, esses números mostram o espaço que a segurança pública ocupou na disputa eleitoral e levantam uma pergunta importante. Quando o medo da violência influencia o voto, quem ganha força para decidir o que será entendido como segurança?
No Rio de Janeiro, essa relação tem rostos conhecidos. Felipe Curi, que comandava a Secretaria de Polícia Civil durante a Operação Contenção, nos complexos da Penha e do Alemão, foi eleito deputado federal com mais de 100 mil votos. Marcelo de Menezes, então secretário da Polícia Militar, conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), assim como Bernardo Leal, o delegado Bernardo Leal, que participou da operação e perdeu uma perna após ser baleado. Realizada em outubro de 2025, a ação deixou 122 mortos, entre eles cinco policiais, e se tornou a operação policial mais letal da história do país.
A operação segue sob investigação da Polícia Federal e do Ministério Público do Rio, que já denunciou seis policiais militares por suspeitas de furto e desvio de armamento apreendido durante a ação. Nesse quase um ano após a operação, na região da Penha e seu entorno, registramos 110 tiroteios com 60 pessoas baleadas. Mesmo sem resultados efetivos, a operação virou capital político e ajudou a eleger quem a comandou.
Policiais, delegados e militares têm o direito de disputar eleições e podem contribuir para o debate público com a experiência que acumularam nas corporações. Mas duas coisas precisam ser consideradas. Primeiro: funcionários públicos deveriam respeitar uma quarentena. Não é justo que saiam dos seus cargos direto para a urna. Eles têm acesso à máquina pública, dados e informações que podem catapultar sua carreira política. Em segundo, precisamos nos questionar por que a resposta que parece mais urgente ao medo quase sempre chega vestida de farda ou distintivo.
Há décadas colocamos boa parte desse problema no colo da polícia. Esperamos que ela controle territórios, enfrente grupos armados, investigue crimes, proteja a população e resolva conflitos que começam muito antes do confronto.
Só que para efetivar a segurança é preciso um imenso conjunto de atores, políticas e iniciativas. Apenas a título de exemplo: no estudo Percursos Interrompidos, registramos 2.228 interrupções no transporte público causadas pela violência armada no Rio entre janeiro de 2023 e julho de 2025. Em 2025, 565 escolas foram afetadas por operações policiais no Grande Rio. Se dados como esses não entrarem na conta, não tem operação que resolva o problema.
Por Cecília Olliveira, diretora executiva do Fogo Cruzado



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