/>
Quando o trabalho adoece: dores e lesões por esforço repetitivo crescem no Brasil e reforçam a importância da prevenção

Quando o trabalho adoece: dores e lesões por esforço repetitivo crescem no Brasil e reforçam a importância da prevenção

No Dia Mundial de combate e prevenção às LER/DORT (28 de fevereiro), especialistas alertam para os riscos e a importância do cuidado precoce

As Lesões por Esforço Repetitivo (LER) e os Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho (DORT) são condições que afetam músculos, tendões e articulações, geralmente provocadas por movimentos repetitivos, esforço excessivo ou posturas mantidas por longos períodos. Consideradas hoje uma das principais causas de afastamento do trabalho no Brasil, essas doenças atingem profissionais de diferentes setores, do escritório à indústria, e têm se tornado cada vez mais frequentes em atividades como teleatendimento, linhas de produção e indústria calçadista. Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) apontam que 2025 registrou mais de 4,1 milhões de afastamentos por doenças ocupacionais, número 15% superior ao de 2024, representando o nível mais alto desde 2021.

Caracterizadas por dor, inflamação e limitação de movimentos, as LER/DORT muitas vezes começam de forma discreta, com sinais como formigamento nos dedos ou desconforto no ombro ao final do expediente. No entanto, quando não identificadas precocemente, essas lesões podem evoluir e comprometer a rotina, a produtividade e a qualidade de vida. 

O professor de ortopedia da Afya Centro Universitário Itaperuna, Dr. Pedro Pilar, explica que os sinais mais comuns incluem dor persistente, sensação de peso, queimação, formigamento e perda de força. “No início, o desconforto aparece apenas durante o trabalho ou esforço repetitivo, e, com o tempo, pode surgir mesmo em repouso”, afirma.

Segundo o médico, punhos, ombros e coluna cervical estão entre as regiões mais afetadas. Além disso, o especialista destaca que o tratamento varia conforme a gravidade e pode envolver medicação, fisioterapia, mudanças ergonômicas e, em casos mais complexos, procedimentos específicos. 

Para o professor de fisioterapia da Afya Itaperuna, Dr. Raul Oliveira, a prevenção ainda é o melhor caminho e que pequenas pausas ao longo do expediente, alongamentos e ajustes na altura da cadeira e do monitor fazem diferença significativa. O profissional ressalta que a ergonomia deve ser personalizada já que cada corpo responde de uma forma.

“A avaliação individual é essencial para garantir que as orientações de saúde e ergonomia façam sentido para cada pessoa e não sejam apenas recomendações genéricas. Cada trabalhador tem um tipo de tarefa, ritmo, ambiente e organização de posto diferentes, o que exige ajustes específicos. Além disso, características físicas, como altura, proporções corporais, força, condicionamento e até histórico de dor ou lesão, mudam bastante de indivíduo para indivíduo”, afirma o fisioterapeuta.

O especialista explica, ainda, que nesses casos a reabilitação vai além do alívio da dor e inclui exercícios terapêuticos cuidadosamente planejados para recuperar mobilidade, força e resistência muscular. Segundo ele, o tratamento também envolve o desenvolvimento da consciência corporal, com foco no controle dos movimentos e na postura durante as atividades diárias e no ambiente de trabalho. Essa abordagem contribui para reduzir a sobrecarga nas articulações, corrigir vícios de movimento e diminuir o risco de recidiva, alinhando a recuperação às exigências reais de cada pessoa e de sua rotina profissional.

Direitos do trabalhador

Do ponto de vista jurídico, a professora e coordenadora do curso de Direito da Afya Itaperuna, Rayla Santos, explica que LER/DORT podem ser reconhecidas como doenças ocupacionais e equiparadas a acidente de trabalho quando há comprovação do nexo causal com a atividade exercida. Nesses casos, se a incapacidade ultrapassar 15 dias, o trabalhador pode ser encaminhado ao INSS e, uma vez reconhecida a relação com o trabalho, ter direito ao auxílio-doença acidentário. Após a alta médica, a legislação assegura estabilidade provisória de 12 meses, período em que não pode ser dispensado sem justa causa. 

Segundo Dra Rayla, a depender das circunstâncias, também pode haver indenização, especialmente, quando se comprova que a empresa contribuiu para o surgimento ou agravamento do quadro por falhas ergonômicas, excesso de jornada ou descumprimento de normas de saúde e segurança. 

“Esses direitos não são automáticos e exigem análise individual, com base em provas médicas e documentos que demonstrem a relação entre a doença e o trabalho. Por isso, recomenda-se que o empregado procure atendimento médico ao primeiro sinal de dor ou limitação funcional e comunique formalmente a empresa”, orienta.

6 curiosidades sobre LER/DORT que muitas pessoas não sabem

1. LER/DORT não acontece só com quem trabalha no computador

Muita gente associa apenas à digitação, mas qualquer atividade repetitiva ou com postura sustentada pode causar LER/DORT: cabeleireiros, costureiras, motoristas, profissionais da saúde, operadores de caixa e até quem faz trabalho doméstico intenso.

2. Dor nem sempre aparece no início  

Em muitos casos, o corpo dá sinais antes da dor forte: formigamento, sensação de peso, perda de força ou “mão cansada”.Ou seja: quando a dor aparece de forma intensa, a lesão pode já estar avançada(e isso atrasa o diagnóstico)

3. Pode virar um problema psicológico e social também


LER/DORT não afeta só músculos e tendões. A limitação funcional, afastamentos e incompreensão no trabalho podem gerar ansiedade, depressão e isolamento, especialmente quando a dor é invisível e a pessoa é desacreditada.

4. No Brasil, pode ser reconhecida como doença ocupacional (com direitos trabalhistas)

Muita gente não sabe que LER/DORT pode gerar afastamento pelo INSS como auxílio-doença acidentário (B91), estabilidade no emprego após retorno, possibilidade de indenização, dependendo do caso, ou seja: não é “só dor”, pode ter repercussão legal importante.

5. É uma das principais causas de afastamento do trabalho

LER/DORT está entre os problemas que mais afastam trabalhadores no país. E ainda existe muito preconceito porque não aparece em exames simples. Mas são condições reais, reconhecidas pela medicina e pela legislação trabalhista.

6. LER/DORT não tem uma única causa, é um problema multifatorial

Hoje se sabe que LER/DORT não surge apenas por esforço repetitivo ou postura inadequada. Fatores emocionais (como estresse e pressão no trabalho), organização das tarefas, carga horária excessiva, falta de pausas e até hábitos de vida influenciam no desenvolvimento e na manutenção da dor. Por isso, tratar apenas o local da lesão nem sempre resolve. O modelo atual recomenda uma abordagem mais ampla, individualizada e interdisciplinar, que considere o corpo, a mente e o contexto de trabalho da pessoa.

Por fim, os especialistas defendem que empresas invistam em programas de ergonomia e qualidade de vida. Além de reduzir os afastamentos, a medida melhora produtividade e bem-estar. Dor recorrente não é parte do trabalho. Identificar sintomas precocemente, buscar orientação profissional e exigir condições adequadas são passos decisivos para evitar que um incômodo passageiro se transforme em problema crônico.

Postar um comentário

0 Comentários

Close Menu